EMPRESAS
:: "Mega-riscos" e as empresas

Por Fernando Almeida
A perspectiva empresarial tradicional restringe o escopo da análise de risco a fatores locais que ameaçam a integridade de seus ativos tangíveis, tais como mão-de-obra, estoque, máquinas e equipamentos essenciais ao processo produtivo. Assim, a avaliação de crise gravita em áreas como saúde e segurança ou ainda na forma tradicional de incêndio e enchentes que podem danificar a infra-estrutura da empresa.
Neste início de século, esta situação está mudando velozmente. As empresas estão inseridas em um ambiente competitivo de complexidade crescente, bastante sensível aos movimentos do contexto internacional e onde a sobrevivência depende de um balanceamento entre o desempenho econômico, social e ambiental.
A nova conjuntura mundial, com diversas tendências que sustentam cenários bastante preocupantes em relação à perenidade do mundo tal como conhecemos hoje, induz à assimilação de novos determinantes na gestão dos riscos corporativos. Diante da emergência de "mega-riscos", as empresas têm de considerar desde instabilidade política e social até proteção da marca e sabotagem. Os executivos precisam tomar decisões com base em cenários que antecipam um futuro provável.
Este novo desafio hoje deve ser gerido de forma abrangente, envolvendo todos os atores da sociedade em uma estratégia que inclua utilização racional dos recursos naturais e reversão do quadro de esgarçamento do tecido social, seja no Rio de Janeiro, Miami ou Bagdá.
Para atender às demandas da sociedade, o processo produtivo naturalmente oferece riscos. Mas estes riscos assumem hoje amplitude e proporção sem precedentes e precisam ser enfrentados por uma gestão integradora do paradigma do desenvolvimento sustentável.
A questão central para o setor corporativo é entender que a ampliação do número de fontes e magnitudes, no longo prazo, configura-se de natureza comercial, política e social. Portanto, a estratégia de acesso e gestão determina compartilhar com parceiros - "stakeholders" e governos - o seu equacionamento. Sozinho, nenhum ator será capaz de administrar suas formas multifacetadas e por vezes inéditas.
Nova era
Os números comprovam que ingressamos numa nova era. Os Estados Unidos gastaram na década de 80 U$ 3.9 bilhões em desastres ou emergências. Na década de 90, esses gastos alcançaram a cifra de U$ 25.4 bilhões, ou seja um aumento seis vezes maior. Outros dados merecem nossa reflexão. O consumo de combustível fóssil, um dos principais indutores do aquecimento global, crescerá em 66% entre 2000 e 2030, acarretando cenários de risco preocupantes para os empreendimentos. E, nos próximos 25 anos, a população mundial será acrescida em um terço, atingindo a casa dos oito bilhões de habitantes.
As companhias hoje geram bens físicos e intangíveis - marca e reputação. Os bens intangíveis respondem pelo menos por 75% do seu valor de mercado. Como vivemos em um "mundo CNN" (as ações repercutem de forma instantânea e global), a reputação é chave de sucesso e sua perda pode levar uma empresa ao caminho da falência, como nos casos recentes da Erons ou Arthur-Andersen. Da mesma forma, a utilização de trabalho infantil, abusos dos direitos humanos e degradação ambiental são práticas inaceitáveis e repudiadas pelo mercado.
Há ainda os mega-riscos políticos, que incluem terrorismo e fanatismo, corrupção, crises de moedas, extorsão ou até mesmo seqüestro. O maior dano financeiro, superior a qualquer catástrofe natural, ocorreu por um ato de fanatismo: os prejuízos com a destruição do Word Trade Center chegaram US$ 19 bilhões, além das irreparáveis perdas humanas.
Existem também os riscos ecológicos recorrentes. Ainda não conhecemos devidamente, e em toda plenitude, as respostas dos sistemas naturais à ação humana e sua resiliência - capacidade de resistir aos impactos antropocêntricos. Hoje, 2,3 bilhões de habitantes do planeta (41% da população) vivem em áreas de escassez de água. Este número aumentará para 3,5 bilhões em 2025, agregando tensão social.
A tendência mundial a um processo que podemos definir como "judicialização", produzindo custos adicionais, é alarmante. No Brasil, de acordo com o Ministério de Meio Ambiente, 50% dos processos de licenciamento já estão na Justiça. Nos EUA, em 1975, o custo anual da "judicialização" alcançou US$ 25 bilhões e, em 2001, esta cifra salta para US$ 220 bilhões, conforme dados e conceitos baseados nas atividades da rede WBCSD (World Business Council for Sustainable Development)/ CEBDS.
Na área de infra-estrutura, basta citar os vírus de computador, como o mydoom, que levam ao desastre milhões de serviços via internet. E, finalmente, o setor de saúde, com as pandemias que se lastram rapidamente, como o HIV que se disseminou da África para o mundo e a SAR, surgida recentemente na China.
O enfrentamento do mega-risco é completamente oposto ao viés tradicional fragmentado, reativo e de curto prazo. Vai muito além da análise convencional: demanda ampla avaliação e inovação. O desafio atual determina uma atuação simultânea e interligada entre a agenda de mega-riscos e a da sustentabilidade, entendida como os três pilares do desenvolvimento moderno (econômico, social e ambiental), com a postura pró-ativa do chamado mundo tripolar - empresários, sociedade civil e governos.
Pensar o impensável, em um amplo feixe de possibilidades de mega-risco no longo prazo, é tarefa básica para os presidentes e tomadores de decisão das empresas. Esta análise determinará a perenidade corporativa. O "apetite" ao risco, assim como a sustentabilidade, tem de ser adotado por toda a organização. A gestão holística deve ser vista como uma ferramenta para a tomada de decisão, comunicada por meio da organização e praticada como uma oportunidade de amadurecimento - e não apenas um problema a ser resolvido.
Assim, os tomadores de decisão e operadores empresariais devem gerir suas instituições dentro de uma cultura preventiva própria, considerando que a prosperidade e a sobrevivência caminham juntas. Ambas estão intrinsecamente ligadas ao engajamento com seus stakeholders - cadeia produtiva, clientes e parceiros. Todos deverão estar afinados com a performance corporativa.
Fernando Almeida é presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) e representante do WBCSD.
Fonte: Boletim Networking - Setembro/2005