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Ramo de atividade: ONG
Fonte: Revista Alphanews - Edição 147 - 6/2005
Ivone vem pelo Cepac - Associação Educacional para Adolescentes e Crianças; Rolando e Joelma são membros da ACM-Alphaville; Mareleusa trabalha na Seiva; Sara, no Camp - Centro de Apoio e Monitoramento Pré-profissionalizante. Esses e outros alunos, duas pessoas por entidade, assistem às aulas de gestão, três vezes por semana, que acontecem na sala cedida pelo Centro de Formação de Professores, em Barueri para o Conselho Municipal dos Direitos de Crianças e Adolescentes, o CMDCA.
Regina é do Grupo Vida; Thaís, da Terraguar; Dídimo, do Instituto Ânima; Isabel, da Cooperativa Esperança; Elin, da Fundação Alphaville; Ana Roth, da Novas Trilhas. Eles, e membros de outras quatro entidades, comparecem às aulas similares que acontecem no auditório cedido pelo Instituto C&A, em Alphaville.
Aprendem conceitos e práticas de gestão empresarial, para adaptar ao dia-a-dia das entidades sociais que representam. As lições são fornecidas por espe-cialistas em administração, instrutores que se congregam em torno da Associação dos Alunos e Ex-alunos dos MBAs da FIA/USP e formaram o Instituto GESC.
João Paulo Altenfelder, o superintendente do Instituto GESC, dá assessoria em Barueri há mais de 4 anos, quando organizou o trabalho desenvolvido pelo CMDCA. "Na época, avaliamos que o trabalho do Conselho se fortaleceria se as organizações do entorno também ficassem mais consistentes", diz João Paulo explicando o motivo de, agora, o CMDCA estar patrocinando o curso de gestão para vinte entidades de Barueri. Em Alphaville, o curso é patrocinado pelo Instituto C&A de Desenvolvimento Social (ver Os financiadores, adiante).
Terceiro setor profissional - O curso Gestão para Organizações da Sociedade Civil. (o GESC) traz, para dentro das entidades do terceiro setor, conceitos próprios da administração de negócios. "A visão empresarial, que usa conceitos como eficiência, competência e competividade, pode ser transferida para a gestão de organizações sociais, tanto na hora de gerir recursos como no momento de obtê-los", diz João Paulo.

As aulas do GESC promovidas pelo CMDCA e pelo Instituto C&A, entidades do Terceiro Setor da região
O GESC ensina, por exemplo, a importância de definir o que se espera da entidade, para dotá-la de efi-ciência, apresentando conceitos como o de missão e causa. "A missão do GESC, por exemplo, é acrescentar qualidade de gestão ao terceiro setor. Essa missão está a serviço de uma causa, que é o fortalecimento da sociedade civil", explica João Paulo, usando sua entidade para exemplificar a prática de estabelecer planos e metas.
Esse vai-e-vem entre a teoria e a prática é essencial à filosofia do GESC. Ivone Ataíde Antunes, por exemplo, vem do Parque Imperial, para as aulas patrocinadas pelo CMDCA. Levou de volta para seus colegas do CEPAC, o instrumento de diagnóstico que os administradores conhecem por "FOFA" (abreviação de "Força, Oportunidades, Fraquezas e Ameaças").
Todas as entidades fizeram esse diagnóstico, identificando onde estão suas forças e fraquezas (elementos internos), suas oportunidades e ameaças (elementos externos). A partir daí, na sequência do curso, que dura quatro meses, cada entidade prepara um plano para atacar uma das fraquezas identificadas.
"No CEPAC, nós detectamos que uma de nossas fraquezas é não ter internet banda larga. Para isso, preparamos um projeto que tenta sanar essa questão, e melhorar, inclusive, os equipamentos de informática que temos hoje, totalmente obsoletos, com os quais damos cursos profissionalizantes para jovens", explica Ivone.
Definir foco - Thaís Dutra, da Terraguar, utilizou os conceitos de missão e causa para estreitar o leque de interesses da entidade. "Estabelecemos, como missão, a educação sócio-ambiental. Antes também nos propunhamos a oferecer soluções ambientais", explica a dirigente dessa ONG voltada à preservação do meio ambiente que assiste o GESC patrocinado pelo Instituto C&A, em Alphaville.
Regina Abu Jamra, do Grupo Vida Barueri, explica que a entidade está preparando, junto com o GESC, o plano de ampliar a atuação no Jardim Mutinga. Ana Roth e os colegas da Novas Trilhas especificaram como objetivo a captação sustentada de recursos para a entidade, que atua em Pirapora do Bom Jesus. Dídimo de Freitas, que assiste às aulas como representante do Instituto Ânima, colocou como missão "contribuir para a prevenção do uso indevido de drogas lícitas e ilícitas no município de Barueri".
Em maio, as entidades estavam preparando esses projetos, os passando pelo crivo de consultores que, além dos professores de cada aula, assessoram os alunos do GESC. Em junho, a apresentação dos projetos como trabalho final não representa o término do curso. Eles passam, então, à vida real. "Os consultores acompanham os projetos por um ano", comenta João Paulo Altenfelder.
Os financiadores
Os dois cursos de Gestão para Organizações da Sociedade Civil (GESC) que aconteceram este semestre em Barueri foram gratuitos para quem o fez, mas tiveram custos cobertos, em última análise, pelo mundo das empresas privadas.

Eduardo Assarito é do Conselho da Criança e do Adolescente (CMDCA); e Paulo Castro, do Instituto C&A
O GESC promovido pelo Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA) foi custeado pelo Fundo Municipal da Criança e do Adolescente (Funcad), que é gerido pelo CMDCA.
Eduardo Assarito é o presidente do CMDCA, gestão 2003-2005. Ele vê a profissionalização das entidades não-governamentais como extremamente necessária, para que busquem financiadores de projetos e enfrentem as dificuldades em captar recursos.
"As entidades não podem viver mais de boa vontade, de filantropia. Elas têm de se profissionalizar", entende Eduardo que sabe bem as qualificações necessárias para que um projeto social seja escolhido por grandes financiadores, como a Fundação Orsa, Instituto Kellog, Abrinq, Instituto Ayrton Senna. O próprio CDMCA de Barueri está à frente do projeto Rede Criança, que tem apoio financeiro da Fundação Telefonica. E foi com esse aporte que o conselho pôde patrocinar as aulas de gestão desenvolvidas pelos MBAs das USP. (Também se contou com parceria do Rotary Club).
No C&A - O GESC que aconteceu em Alphaville foi custeado pelo Instituto C&A de Desenvolvimento Social. Paulo Castro, diretor-presidente do Instituto C&A, explica estar envolvido com o GESC desde 2000. "O curso consegue adequar princípios universais da gestão empresarial à gestão das questões sociais", diz. Além de financiar e ceder espaço para as aulas, o Instituto C&A entra com 20 voluntários que atuam como consultores. "É um mundo diferente para eles", diz o executivo sobre a experiência vivida pelos funcionários no contato com as organizações do terceiro setor.
"O aprendizado é um processo. Nenhuma formação de poucos meses vai resolver todas as questões, mas instala a discussão sobre instrumentos de gestão, uma nova lógica para que a entidade se organize daí para frente. O objetivo não é transformar ONGs em empresas, mas mostrar que há instrumentos utilizados no mundo corporativo que podem ser aplicados dentro de uma organização social".
O Instituto C&A não trabalha com projetos prontos. O objetivo principal é fortalecer organismos da sociedade civil. "Não somos meros financiadores. Discutimos os projetos com as entidades, assessoramos, provocamos mudanças para que os objetivos sejam atingidos", diz Paulo Castro. Em 2005, o Instituto trabalha com mais de 100 projetos, coordenando cerca de 2.200 voluntários. Em Alphaville, no prédio do Condomínio Rio Negro onde fica o Instituto C&A, são oito pessoas trabalhando sob o comando de Paulo Castro. Para o GESC, o Instituto destinou cerca de 40 mil reais. No total, em 2005, o Instituto C&A movimenta um orçamento de 9 milhões e meio de reais.
ONGs mal geridas
A Associação dos Alunos e Ex-alunos dos MBAs da FIA/USP fez um levantamento entre 95 organizações não-governamentais, para estabelecer se os instrumentos de gestão eram ou não uma necessidade entre elas. A pesquisa, ampla, detectou que quase 65% das entidades não conhecem esses instrumentos; ou conhecem e não os aplicam; ou conhecem e não acreditam ser o momento de aplicá-los.
"É esse universo que nos interessa", diz João Paulo Altenfelder, superintendente da Instituto GESC, que acredita no trabalho que faz, no sentido de dotar as organizações de eficiência e, como consequência, fortalecer a chamada sociedade civil. "O Brasil tem 36 milhões de crianças e adolescentes prestes a entrar no mercado de trabalho. Nós, que temos a informação sobre a gestão eficiente, não podemos deixar que se jogue dinheiro fora. Temos que ajudar as entidades a serem eficientes na gestão de recursos, para enfrentarmos o problema social que vivemos no Brasil".
